domingo, 10 de outubro de 2010

Uma migalha de ilusão do pão da vida

Uma migalha de ilusão paira no oceano azul marinho que é o céu. A correnteza do rio corre, e ri da liberdade de estar em movimento. Na árvore, o fruto aguarda o momento da queda. No chão, o bicho; que tudo fareja, que tudo perscruta. Na orelha peluda, o perfume do perigo. Das sombras da terra, garras enormes. Fim. E início. Na grama recém cúmplice de um assassinato um casal trepa da forma mais dionisíaca enquanto os pássaros nada vêem de moralmente repreensivo e, harmônicos, gorjeiam melodias nupciais. Finda a concepção, um cigarro aceso coringa as bocas agora individuais. Na marola do amor natural a natureza impõe a certeza de que só o amor salva, e de que a morte – a grande ou a pequena – são necessárias. Olhando os dois para o céu sem pensar na vida, mas vivendo-a, percebem ambos uma estrela que paira no céu. Luz morta, ainda visível para os vivos. No rio um tronco, no vento um papagaio. Sem pensar na morte o ser humano morre, a cada segundo. E quando sua luz se extinguir finalmente, será a ilusão do movimento, da gravidade, do medo, da morte e do amor o que o verdadeiro véu que encobriu a vida irá naturalmente desvelar.

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